Como é que uma cárie se forma, na verdade?
A prevenção das cáries dentárias começa por compreender o seu mecanismo — e este é bem específico. Uma cárie não é uma simples «degradação do dente»: é o resultado de um desequilíbrio repetido entre as fases de desmineralização e remineralização do esmalte. A boa notícia: este desequilíbrio é amplamente evitável com os hábitos corretos. Para qualquer dor dentária já instalada, a página sobre dor de dentes detalha os cuidados de emergência. As pastas dentífricas e os produtos de higiene oral estão disponíveis na loja.
- Os 4 fatores que têm de se combinar para que se forme uma cárie: um dente (esmalte mineralizado vulnerável) + bactérias cariogénicas (Streptococcus mutans + Lactobacillus) + um substrato fermentável (açúcares e amidos) + o tempo — basta eliminar um destes fatores para quebrar o ciclo
- O mecanismo bioquímico: as bactérias da placa dentária fermentam os açúcares → produção de ácidos (ácido láctico, ácido acético) → o pH oral desce abaixo de 5,5 (limiar crítico) → dissolução dos cristais de hidroxiapatita do esmalte (desmineralização) → se a desmineralização superar a remineralização → cárie
- A curva de Stephan: cada refeição açucarada faz com que o pH bucal desça em 3–5 min → fase ácida que dura 20 a 40 min antes de a saliva o neutralizar → 5 petiscos açucarados por dia = 5 ciclos diários de ataque ácido — é a frequência das refeições açucaradas (e não a quantidade total de açúcar) que constitui o principal fator de risco
- Estágios da cárie: estágio 0 — mancha branca (desmineralização superficial reversível com flúor) — estágio 1 — cárie do esmalte (esmalte afetado, pouco sintomática) — estágio 2 — cárie da dentina (dentina afetada, sensibilidade ao calor/frio/açúcar) — estágio 3 — cárie pulpar (nervo afetado, dor espontânea) — estádio 4 — necrose e abcesso — quanto mais cedo a cárie for tratada, mais simples e menos invasivo será o tratamento
O flúor: como é que protege realmente o esmalte?
- Mecanismo de proteção do flúor: o flúor deposita-se no esmalte e reage com a hidroxiapatita para formar fluorapatita — mais resistente aos ácidos (dissolve-se a um pH de 4,5 em vez de 5,5) — o flúor também favorece a remineralização, acelerando a recristalização do esmalte após um ataque ácido — inibe as enzimas glicolíticas do Streptococcus mutans (reduz a produção de ácido pelas bactérias)
- Concentração eficaz em pastas dentífricas: crianças dos 0 aos 3 anos: 1 000 ppm no máximo (mediante prescrição médica) — crianças dos 3 aos 6 anos: 1 000–1 450 ppm — crianças com mais de 6 anos e adultos: 1 450–1 500 ppm (norma europeia) — adultos de alto risco: 2 800 a 5 000 ppm mediante prescrição médica — a concentração é a variável chave, não a marca — cuspir sempre sem enxaguar após a escovagem para manter a película protetora de flúor
- Flúor tópico profissional: verniz fluorado (22 600 ppm — Duraphat) — aplicado 2 a 4 vezes por ano pelo dentista em doentes de alto risco — gel fluorado em moldeira — elixir bucal fluorado (225–500 ppm) à noite, após a escovagem — cada um reforça a remineralização e a resistência do esmalte
- Flúor sistémico e água: a água da torneira em França contém, em geral, 0,1–0,3 mg/L de flúor (concentração demasiado baixa para a proteção dentária) — comprimidos de flúor (suplementos fluorados pediátricos) prescritos exclusivamente pelo médico ou dentista, em função do teor local de flúor e do risco de cáries — o flúor tópico (pasta de dentes) é sempre mais eficaz do que o flúor sistémico para a proteção direta do esmalte
Alimentação, saliva e remineralização: os fatores naturais
- Reduzir a frequência das refeições doces: passar de 6 para 3 refeições por dia reduz consideravelmente o número de ciclos ácidos — as refeições estruturadas são menos cariogénicas do que o petiscar contínuo — os rebuçados duros (contacto prolongado) e as bebidas açucaradas (contacto repetido) são mais causadoras de cáries do que os alimentos sólidos açucarados consumidos durante as refeições
- Xilitol — o adoçante anticárie: adoçante natural (bétula, milho) — não fermentável pelo Streptococcus mutans (as bactérias não conseguem produzir ácido a partir do xilitol) — inibe ativamente o crescimento bacteriano — as pastilhas elásticas com xilitol (5 g/dia, 3 vezes após as refeições) são recomendados pela OMS e pela UFSBD para estimular a salivação e reduzir a cariogenicidade — os produtos à base de própolis podem complementar este efeito antibacteriano
- Papel da saliva: tampão ácido (os bicarbonatos salivares neutralizam os ácidos 20–30 minutos após a refeição) — fonte de iões de cálcio e fosfato (remineralização) — antibacteriana (IgA secretora, lisozima, lactoferrina) — a xerostomia (secura oral — associada a medicamentos anticolinérgicos, radioterapia, síndrome de Sjögren) multiplica o risco de cáries por 3 a 5
- Cálcio e vitamina C: o cálcio é o principal componente da hidroxiapatita — um aporte calcífico suficiente através da alimentação apoia a remineralização contínua do esmalte — a vitamina C é indispensável para a síntese do colagénio gengival (saúde do tecido de suporte dos dentes) — uma carência de vitamina C fragiliza as gengivas e pode favorecer as periodontopatias, que expõem a raiz à cárie cervical
- Alimentos protetores: queijos de pasta dura (estimulam a saliva + fornecem cálcio + pH alcalinizante) — água mineral (bicarbonatada, substitui as bebidas ácidas) — vegetais crus e fibras duras (estimulam mecanicamente a salivação) — mastigar sem açúcar favorece a limpeza salivar após as refeições
Rotina de prevenção eficaz: o que faz realmente a diferença
- Escovagem dentária: os erros mais comuns: escovar com demasiada força (agressão ao esmalte e às gengivas sem remover mais placa bacteriana) — escovar demasiado depressa (< 2 minutos: placa bacteriana insuficientemente eliminada) — enxaguar abundantemente após a escovagem (elimina o flúor protetor — cuspir sem enxaguar) — esquecer a face lingual (lado da língua) e as gengivas — a escovagem elétrica oscilante-rotativa é clinicamente superior à manual na redução da placa
- Fio dental e escovinhas interdentais: 40 % da superfície dentária é interdental e inacessível à escova — a placa interdental é a principal fonte de cáries e gengivite — utilizar o fio dental ou escovinhas do tamanho adequado uma vez por dia (à noite) — as escovinhas são mais eficazes do que o fio nos espaços largos (após tratamento periodontal, com coroas ou pontes) — produtos disponíveis na gama de fio dental
- Consultas dentárias preventivas: raspagem + polimento + radiografias interproximais 1 a 2 vezes por ano — uma cárie no estágio 0 ou 1 (mancha branca / cárie amelar) pode remineralizar-se sem necessidade de fresagem, com flúor profissional + alterações na alimentação — esperar sentir dor antes de ir ao dentista = tratamento sempre mais invasivo e mais dispendioso
- Pessoas de alto risco: crianças na fase de dentição de leite (esmalte menos mineralizado) — idosos (recessões gengivais que expõem as raízes) — doentes sob medicação que reduz a salivação (antidepressivos, anti-histamínicos, diuréticos) — pessoas com refluxo gastroesofágico (os ácidos gástricos corroem o esmalte) — ortodontistas com aparelhos fixos (a placa acumula-se à volta dos brackets) — ver também a página sobre higiene oral