O que é uma afta e quais são as suas diferentes formas?
A afta (ulceração aftosa recorrente) é uma ulceração benigna da mucosa oral, não contagiosa, que se forma por destruição localizada das células epiteliais. Apresenta-se normalmente sob a forma de uma ulceração redonda ou oval com fundo amarelo-acinzentado, rodeada por um halo vermelho vivo, localizada nas mucosas móveis (parte interna das bochechas, fundo do vestíbulo, língua móvel, palato mole). A dor é desproporcional em relação ao tamanho — mesmo uma afta de 3 mm pode tornar a mastigação muito difícil. A gama de produtos para aftas e os cuidadosde higiene oral adequados estão disponíveis na loja. Uma afta que persista por mais de 2 semanas, ou que seja acompanhada de febre ou dificuldades em engolir, deve ser avaliada por um profissional de saúde.
- Úlcera menor (forma mais frequente — 80 %): diâmetro < 1 cm — cicatrização espontânea em 7 a 14 dias sem deixar cicatriz — ocorre 1 a 6 vezes por ano em pessoas predispostas — localização: bochechas, lábios, bordos da língua
- Úlcera aftosa maior (forma de Sutton — 15 %): diâmetro > 1 cm — dor intensa, tempo de cicatrização de 2 a 6 semanas — pode deixar uma cicatriz — localização preferencial: palato mole, faringe, amígdalas — requer frequentemente corticoterapia local
- Úlcera herpetiforme (5 %): múltiplas pequenas ulcerações de 1–3 mm agrupadas em aglomerados de 10 a 100 — assemelham-se visualmente ao herpes, mas sem a presença do vírus (não contagiosas) — muito dolorosas devido à confluência — evolução de 7 a 14 dias
- Estomatite aftosa recorrente (EAR): mais de 3 episódios por ano — pode indicar doença de Crohn, doença de Behçet, doença celíaca não diagnosticada ou carência crónica — umaEAR grave justifica um exame médico completo
Quais são as causas e os fatores desencadeantes das aftas?
- Traumatismos locais: mordida acidental na bochecha ou na língua — escovagem agressiva com uma escova dura — aparelho ortodôntico ou prótese mal ajustados — alimentos cortantes (batatas fritas, pão estaladiço) — é frequentemente o fator desencadeante imediato que se soma a uma predisposição
- Stress e fadiga: o stress ativa o eixo HPA (hipotálamo-hipófise-suprarrenal) e aumenta o cortisol — a resposta imunitária local das mucosas (IgA secretora) é reduzida — as pessoas em situação de sobreesforço crónico têm 2 a 3 vezes mais aftas — o magnésio, cuja carência é agravada pelo stress, está frequentemente envolvido
- Alimentos desencadeantes: nozes e amêndoas — chocolate — tomates e citrinos — morangos e ananás — gruyère e emmental — especiarias fortes — certos aditivos alimentares — cada pessoa tem o seu próprio perfil de fatores desencadeantes — um diário alimentar ajuda a identificá-los
- Laurilsulfato de sódio (SLS): tensioativo presente em muitos dentífricos (responsável pela formação de espuma) — irrita e desidrata a mucosa oral — vários estudos demonstram uma redução de 40 a 80 % na frequência das aftas com pastas de dentes sem SLS — mudar para uma pasta de dentes sem SLS é a primeira medida a testar em caso de aftas recorrentes
- Flutuações hormonais: as mulheres referem frequentemente um aumento das aftas na fase pré-menstrual (queda dos estrogénios) — a gravidez e a menopausa podem alterar a frequência dos episódios — a ligação hormonal está documentada, mas os mecanismos continuam a não ser totalmente compreendidos
Carências nutricionais e aftas recorrentes: o que é preciso verificar
- Carência de ferro: a mais frequente das carências associadas às aftas recorrentes — o ferro é indispensável para a renovação das células epiteliais bucais — medir a ferritina (e não apenas a hemoglobina — a carência pode estar presente sem anemia) — uma ferritina < 20 µg/L está frequentemente associada a um aumento dos episódios
- Carência de vitamina B12: estudo de Volkov et al.: a suplementação com vitamina B12 (1 000 µg/dia por via sublingual) reduz significativamente a frequência das aftas, mesmo sem deficiência biológica comprovada — a vitamina B12 sublingual é a forma mais biodisponível — deve ser testada num tratamento de 3 meses em caso de SAR
- Carência de zinco: o zinco é um cofator das metaloproteinases da matriz (reparação epitelial) e da imunidade mucosa local — uma carência de zinco retarda a cicatrização e favorece a recorrência — a suplementação com zinco (15–25 mg/dia) num tratamento de 2–3 meses é frequentemente recomendada antes da avaliação em caso de SAR
- Carência de vitamina B9 (folato) e B6: menos documentadas, mas associadas em vários estudos à estomatite aftosa recorrente — a investigar se as carências de ferro e de vitamina B12 estão normais — um complexo B completo pode cobrir várias carências simultaneamente
- Exames a solicitar em caso de SAR grave: hemograma completo (anemia) + ferritina + vitamina B12 + folato + zinco + avaliação da tiróide + anticorpos anti-transglutaminase IgA (doença celíaca) + PCR (inflamação sistémica) — este painel permite identificar a causa subjacente na maioria dos casos
Que tratamentos e remédios naturais existem para aliviar uma úlcera na boca?
- Tratamentos locais de referência: gel à base de acetonido de triancinolona (corticosteroide tópico) em pasta bucal — reduz a inflamação e a dor em 24–48 h e acelera a cicatrização — gel de lidocaína a 2 % (anestésico local) antes das refeições para permitir a alimentação sem dor — bochechos com clorexidina a 0,12–0,2% (antisséptico de referência) — estes tratamentos estão disponíveis mediante aconselhamento do farmacêutico para as formas ligeiras — as formas graves requerem consulta médica
- Própolis: resina natural com propriedades antibacterianas, antivirais e anti-inflamatórias — disponível em spray bucal, gel ou tintura — aplicação direta sobre a úlcera oral 3 a 4 vezes por dia — reduz a dor e acelera a cicatrização — vários estudos in vitro e alguns estudos clínicos demonstram uma eficácia comparável à do triclosan
- Mel de Manuka (MGO ≥ 250): antibacteriano e anti-inflamatório natural — aplicação direta sobre a úlcera 3 vezes por dia — forma uma película protetora sobre a lesão — eficaz em úlceras menores, menos eficaz nas formas mais graves
- Água salgada e bicarbonato de sódio: enxaguamento 3–4 vezes por dia (1 c.c. de sal ou bicarbonato num copo de água morna) — alcaliniza o pH bucal, reduz a inflamação local, limpa a lesão — tratamento de primeira linha simples, sem efeitos secundários, disponível em casa
- Quando consultar imediatamente: aftas que persistam por mais de 2 semanas — aftas muito grandes (> 1 cm) — múltiplas aftas simultâneas (> 5) — febre associada — dificuldades em engolir ou abrir a boca — aftas numa criança com menos de 1 ano — qualquer lesão branca, vermelha ou de aspeto invulgar que não se assemelhe a uma afta clássica — estas situações podem revelar uma estomatite subjacente ou uma patologia mais grave