O que é a falta de apetite e quando é que nos devemos preocupar?
A falta de apetite (anorexia médica) refere-se a uma redução duradoura do desejo de comer que afeta a ingestão nutricional. Os sinais que exigem uma consulta médica:
- Perda de peso involuntária superior a 5 % do peso num mês ou 10 % em seis meses — critério de desnutrição segundo a HAS.
- Falta de apetite persistente durante mais de 2 semanas sem causa evidente.
- Sinais associados: fadiga intensa, icterícia, dores abdominais, alterações no trânsito intestinal, febre prolongada.
- Contexto específico: toma de medicamentos anorexígenos (opióides, quimioterapia, determinados antibióticos), doença oncológica conhecida, insuficiência orgânica.
Que doenças podem causar falta de apetite?
A falta de apetite é um sintoma inespecífico que pode revelar uma patologia subjacente:
- Doença da tiróide: a hipotiroidismo reduz o metabolismo e o apetite; o hipertiroidismo pode, paradoxalmente, também reduzir o apetite em pessoas idosas.
- Insuficiência renal crónica: acumulação de uremia que provoca náuseas e anorexia.
- Doenças hepáticas: hepatite viral, cirrose, cancro do fígado.
- Cancros: o TNF-α e as citocinas pró-inflamatórias libertadas pelos tumores induzem diretamente a anorexia (síndrome de caquexia tumoral).
- Depressão: a falta de dopamina e de serotonina reduz a motivação e o prazer alimentar.
- Infecções crónicas: tuberculose, VIH — a inflamação sistémica mediada pela IL-6 e pelo TNF-α inibe o apetite.
Que carências nutricionais reduzem o apetite?
Várias carências criam um círculo vicioso: carência → anorexia → agravamento da carência:
- O zinco (cofator das enzimas gustativas): a sua carência altera o olfato e o paladar. A correção (10 a 25 mg/diade zinco) restaura o prazer alimentar em 4 a 8 semanas.
- A vitamina B12: a sua carência provoca fadiga profunda, glossite atrófica e aversão à comida. É frequente em veganos, idosos e doentes em tratamento com metformina.
- O magnésio: a sua carência provoca náuseas e anorexia, sendo frequente em doentes submetidos a tratamento com inibidores da bomba de protões (IBP), diuréticos e quimioterapia.
Como é que a genciana e as plantas amargas estimulam o apetite?
A genciana (Gentiana lutea) é a planta orexigénica mais bem documentada da fitoterapia europeia. Os seus iridoides (gentiopicrosídeo, amarogentina — as substâncias mais amargas conhecidas) estimulam os recetores TAS2R da mucosa gástrica e desencadeiam, por reflexo, a secreção de ácido clorídrico, pepsina e bílis. Esta secreção prévia de sucos digestivos cria uma «fome mecânica» que estimula a ingestão de alimentos. O feno-grego e a angélica também dispõem de dados fitoterapêuticos. A genciana é contraindicada em caso de úlcera gastroduodenal ativa.
Como melhorar o apetite durante a convalescença ou sob tratamento?
A gestão da falta de apetite durante a convalescença requer uma abordagem multidimensional:
- Dividir as refeições (5 a 6 pequenas refeições por dia): reduz a carga gástrica e melhora o aporte calórico total.
- Enriquecer os alimentos em densidade energética: adicionar azeite, manteiga ou ovos aumenta as calorias sem aumentar o volume.
- Cuidar da apresentação e do ambiente: estudos comportamentais demonstram que comer em companhia aumenta a ingestão em 30 a 40 %.
- Apoio digestivo com plantas suaves para melhorar a digestão (alcachofra, funcho) e aumentar a tolerância às refeições.
Os probióticos e a vitamina C estimulam o apetite?
Dois suplementos são relevantes em determinados contextos de falta de apetite:
- Os probióticos: em caso de falta de apetite pós-antibiótica ou associada a uma disbiose, restabelecem uma microbiota produtora de GLP-1 e melhoram a tolerância digestiva, fator-chave para recuperar o apetite.
- A vitamina C: a sua carência subclínica (frequente em fumadores, idosos e pessoas submetidas a quimioterapia) contribui para a fadiga e a aversão alimentar. A correção desta carência melhora a ingestão alimentar, reduzindo a fadiga associada.