O que se entende por lesão oral e quais são as suas principais categorias?
O termo «lesões orais» abrange qualquer alteração anormal dos tecidos da cavidade oral — gengivas, língua, palato, face interna das bochechas, lábios e assoalho da boca. Estas lesões vão desde a aftosa comum, que cicatriza espontaneamente numa semana, até à lesão pré-cancerosa, que requer uma biópsia. Distinguir rapidamente uma lesão benigna de uma lesão suspeita é o principal desafio — e a regra das duas semanas é universal: qualquer lesão oral que não cicatrize espontaneamente em 14 dias deve ser examinada por um médico ou dentista. Os cuidadosde higiene oral e os produtos para aftas disponíveis na loja podem ajudar no tratamento das lesões benignas comuns.
- Lesões ulcerosas: perda de tecido da mucosa — as aftas (ulcerações redondas com fundo amarelo bordado de vermelho, dolorosas, cicatrização em 7–14 dias) são a forma mais frequente — consulte a página dedicada às aftas — as ulcerações herpéticas são mais superficiais e agrupadas — as traumáticas (mordidas, próteses mal ajustadas) são frequentemente unilaterais e localizadas no local de fricção
- Lesões brancas: leucoplasia (placa branca que não desaparece ao ser raspada → é obrigatória a realização de uma biópsia, uma vez que 5–17 % dos casos evoluem para transformação maligna) — candidíase oral / aftas (placas brancas que desaparecem ao serem raspadas → antifúngicos — ver candidíases) — líquen plano oral (estrias brancas reticuladas simétricas — lesão autoimune, não contagiosa)
- Lesões vermelhas (eritematosas): eritroplasia (placa vermelha aveludada persistente → elevado risco de malignidade, biópsia urgente) — estomatite (inflamação difusa — ver estomatite) — gengivite (vermelhidão + sangramento das gengivas) — eritema de contacto (alérgeno local)
- Lesões vesiculares e bolhosas: herpes simplex (herpes labial — vesículas agrupadas sobre fundo eritematoso) — zona (VZV — vesículas unilaterais estritamente num território nervoso) — pênfigo vulgar (bolhas frágeis — doença autoimune grave, consulta dermatológica urgente)
- Lesões pigmentadas e tumorais: melanose oral benigna (mancha castanha plana, estável) — melanoma da mucosa (raro, mas grave — crescimento rápido, bordas irregulares) — fibromas traumáticos (nódulos firmes e indolores, associados a fricção repetida) — papiloma (HPV — protuberância com aspeto de couve-flor)
Que carências podem provocar lesões orais recorrentes?
- Carência de ferro: a carência de ferro é a principal causa nutricional de lesões orais recorrentes — a mucosa oral renova-se rapidamente e o ferro é indispensável para esse processo — sinais: aftas recorrentes + glossite atrófica (língua vermelha, lisa, sem papilas) + fissuras nas comissuras + cansaço + palidez — é necessário realizar uma análise da ferritina antes de qualquer tratamento sintomático prolongado
- Carência de vitamina B12: a vitamina B12 é necessária para a rápida divisão das células epiteliais orais — a sua deficiência provoca glossite (língua vermelha, dolorosa e despapilada) e ulcerações da mucosa — deve ser suspeitada em veganos, idosos e doentes sob tratamento com IBP ou metformina
- Carência de ácido fólico (B9): o folato participa, juntamente com a vitamina B12, na síntese do ADN nas células mucosas — a sua carência provoca sinais semelhantes aos da carência de vitamina B12 (glossite, estomatite, ulcerações) — particularmente frequente em mulheres que tomam contraceptivos orais e em alcoólicos crónicos
- Carência de zinco: o zinco é um cofator da imunidade mucosa local e da reparação epitelial — uma carência retarda a cicatrização das lesões, favorece as ulcerações recorrentes e pode ser acompanhada por perda do paladar (ageusia) — o zinco, associado à vitamina C, acelera a cicatrização das mucosas
- Doença celíaca não diagnosticada: a aftose bucal recorrente é, por vezes, o sinal revelador de uma enteropatia por glúten — em caso de aftas múltiplas, muito frequentes, resistentes aos tratamentos habituais + carências múltiplas (B12, ferro, folato) → deve solicitar-se ao médico um exame serológico para a doença celíaca (anticorpos anti-transglutaminase IgA)
Como distinguir uma lesão benigna de uma lesão suspeita?
- Características tranquilizadoras de uma lesão benigna: aparecimento recente após um fator desencadeante identificável (mordida, alimento duro, stress, infeção viral) — tamanho < 1 cm — bordos nítidos e regulares — presença de dor (paradoxalmente, as lesões malignas costumam doer menos) — cicatrização espontânea em menos de 14 dias
- Sinais de alarme que exigem uma consulta rápida: lesão que persiste mais de 2 semanas sem motivo evidente — placa branca ou vermelha que não desaparece ao ser raspada — bordas irregulares, induradas (duras ao toque) — aspeto que mistura vermelho e branco (lesão eritroleucoplásica) — crescimento rápido — indolor (os cancros orais em fase inicial costumam ser pouco ou nada dolorosos) — adenopatia cervical associada (gânglio duro sob a mandíbula)
- Fatores de risco para o cancro oral: tabaco (cigarro, cachimbo, charuto, tabaco de mascar — principal fator) + álcool (efeito sinérgico com o tabaco — o risco é multiplicado por 15 nos fumadores que bebem) + HPV 16 e 18 (em aumento, nomeadamente nos cancros da orofaringe) + exposição solar (lábio inferior) + má higiene oral crónica — qualquer pessoa com estes fatores de risco deve submeter-se a um exame oral regular junto do seu dentista
- Exame com espelho pessoal: uma autoinspeção mensal da boca (lábios, língua, bochechas, palato, gengivas, assoalho da boca) permite detetar rapidamente qualquer alteração invulgar — o dentista realiza este exame sistematicamente durante as consultas — comunique qualquer alteração observada desde a última consulta
Como aliviar as lesões orais benignas no dia a dia?
- Enxaguantes bucais com água salgada ou bicarbonato: 1 colher de chá de sal ou de bicarbonato num copo de água morna — 3 a 4 enxaguamentos por dia — anti-inflamatório local suave, limpa as lesões, alcaliniza o pH oral (hostil às bactérias) — alívio rápido sem agredir a mucosa — alternativa aos enxaguantes bucais antissépticos à base de álcool, que podem causar irritação
- Géis anestésicos locais: lidocaína a 2 % em gel tópico — aplicar antes das refeições para permitir comer sem dor — ação rápida (2–3 min), mas de curta duração (30–45 min) — disponíveis sem receita médica na farmácia — não exceder as doses recomendadas (risco de toxicidade sistémica em doses muito elevadas)
- Mel de Manuka: propriedades antibacterianas comprovadas (metilglioxal — MGO ≥ 250) — reduz a inflamação e a dor local nas ulcerações — aplicar diretamente sobre a lesão 3 a 4 vezes por dia — indicado para aftas, lesões herpéticas ligeiras e estomatites menores
- Alimentação adequada na fase aguda: evitar alimentos ácidos (citrinos, tomates, vinagre), picantes, muito quentes ou muito frios — dar preferência a texturas suaves e frescas (iogurte, compota, puré morno) — cortar os alimentos em pedaços pequenos para reduzir a fricção nas lesões — hidratar-se bem para manter a saliva fluida (primeira defesa natural das mucosas)
- Quando é indispensável consultar um médico: lesão que não cicatriza em 14 dias — dor intensa apesar dos analgésicos — dificuldades em engolir, respirar ou abrir a boca — febre associada — lesão num doente imunodeprimido (VIH, quimioterapia, tratamento prolongado com corticosteroides) — dúvida quanto à natureza da lesão — em caso de dor de dentes e abcessos dentários associados, é necessário recorrer a cuidados dentários de urgência